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  • Brunno A. Nóbrega

Mídias sociais e saúde mental dos adolescentes




No contexto atual de pandemia pelo novo coronavírus de 2019 (SARS-CoV 2), houve uma maior permissividade, por parte dos pais, em relação ao uso de eletrônicos pelos seus filhos. Porém, mesmo antes da pandemia, havia a busca por conhecimento cada vez mais acurado sobre os malefícios do excesso de uso de telas para o bem-estar emocional e comportamental.


Visto o número elevado de jovens com histórico de automutilação que também fazem uso de mídias sociais, busquei artigo que tratasse de possível associação entre ambos.


FONTE:

Journal of Affective Disorders

Volume 274 , 1 de setembro de 2020 , páginas 864-870




A mídia social é um fenômeno relativamente novo, embora os adolescentes de hoje tenham crescido em um mundo onde ela sempre esteve presente. No contexto atual de pandemia pelo novo coronavírus de 2019 (SARS-CoV 2), houve uma maior permissividade, por parte dos pais, em relação ao uso de eletrônicos pelos seus filhos.


O uso de mídias sociais entre adolescentes aumentou rapidamente nos últimos 16 anos, desde o lançamento do Facebook. Quase 70% dos jovens entre 12 e 15 anos do Reino Unido (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte) têm um ou mais perfis em mídias sociais, e mais de um terço concordam que acham difícil controlar o tempo de uso dessas mídias.


Os resultados de vários estudos sugerem que o uso de mídias sociais pode estar associado a uma pior saúde mental em adolescentes. Por exemplo, usando dados de questionário transversal derivados de estudo de coorte de base populacional metodologicamente rigoroso (Millennium Cohort Study), foi descoberto que o tempo gasto nas redes sociais, aos 14 anos, estava associado a sintomas depressivos, com associação mais forte no sexo feminino.


Até o momento, existem poucas pesquisas que analisaram a associação entre o tempo em mídias sociais e o risco de automutilação. A automutilação, além das consequências físicas imediatas, está associada ao aumento do risco de suicídio. Os níveis de automutilação aumentaram substancialmente nos últimos anos, particularmente em garotas entre 13 e 16 anos, fazendo com que a falta de evidências sobre sua associação com as mídias sociais exija mais conhecimento.


Nos diários de tempo de uso (DTU's), os entrevistados são solicitados a registrar seu uso de mídias sociais (entre outras atividades) em pequenas unidades de tempo durante um dia específico.


Neste estudo, com adolescentes do Reino Unido, foram investigadas associações entre o tempo gasto nas redes sociais e a automutilação, sintomas depressivos e autoestima, levando em consideração problemas de saúde mental anteriores. Foram utilizados dados transversais da sexta varredura (2015) do Millennium Cohort Study, quando os entrevistados tinham entre 13 e 15 anos. De todos os participantes, 4.642 preencheram e devolveram DTU's (26% com 13 anos, 73% com 14, 1% com 15; 55% do sexo feminino). Desses jovens, houve dados de 4.032 participantes (3.800 em um dia de semana e 3.814 em um dia de fim de semana). Os membros da coorte que completaram os dados eram significativamente mais jovens e mais propensos a serem mulheres, brancos e de uma família de renda mais alta.


AUTOMUTILAÇÃO -> A automutilação no último ano foi relatada por 14,7% da amostra (20,2% das mulheres e 6,5% dos homens). Após o ajuste para fatores de confusão, uma maior quantidade de tempo gasto nas redes sociais em um dia da semana foi associada a um aumento do risco de automutilação para mulheres (OR [odds ratio ou razão de chances]) ajustado = 1,13 = 13% de aumento do risco (IC de 95%, entre 1,06 e 1,21). Para o uso no final de semana, houve risco aumentado de automutilação para homens e mulheres, mas, com pouca evidência estatística para uma associação (OR ajustado para mulheres = 1,04, IC de 95%, entre 0,98 e 1,10; OR ajustado para homens = 1,06, IC de 95%, entre 0,97 e 1,16).

DEPRESSÃO -> As mulheres relataram níveis mais elevados de sintomas depressivos (média = 6,78, DP = 6,33) do que os homens (média = 3,99, DP = 4,38). Para as mulheres, o aumento do tempo gasto nas redes sociais foi associado a um maior número de sintomas depressivos, e os resultados permaneceram após o ajuste para fatores de confusão e foram consistentes para o uso durante a semana e no fim de semana (uso durante a semana = 0,36, IC de 95%, entre 0,22 e 0,50; uso no fim de semana = 0,19, IC de 95%, entre 0,06 e 0,32). Houve poucas evidências de uma associação entre o tempo gasto nas redes sociais e depressão em homens.


AUTOESTIMA -> Os homens relataram níveis mais elevados de autoestima (média = 11,49, DP = 2,54) do que as mulheres (média = 9,92, DP = 2,88). Para as mulheres, o aumento do tempo gasto nas redes sociais foi associado ao aumento do risco de baixa autoestima. Os resultados permaneceram após o ajuste para fatores de confusão e foram consistentes para o uso durante a semana e no fim de semana (uso durante a semana = -0,12, IC de 95%, entre -0,20 e -0,04; uso no fim de semana = -0,12, IC de 95%, entre −0,18 e −0,07). Havia poucas evidências de uma associação entre o tempo gasto nas redes sociais e a autoestima em homens.


Em suma, uma maior quantidade de tempo gasto nas redes sociais foi associada a um maior risco de automutilação e depressão, e a níveis mais baixos de autoestima, em mulheres. Os resultados persistiram após o ajuste para variáveis, incluindo problemas de saúde mental anteriores.


Ainda há a necessidade de mais pesquisas para melhorar a compreensão dessas diferenças de gênero, visto que o sentido da associação não possa ser determinada em um estudo transversal. Então, serão necessários estudos longitudinais entender melhor essa relação.


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